Love me, love me,say that you love me, fool me, go on and fool me…

Tanto quanto os polegares opositores, o deslocamento sobre duas patas, a comunicação escrita ou o happy hour de sexta-feira, uma das coisas que separa o ser humano dos outros animais é a capacidade de mentir pra si mesmo.

Amor ou profissão?

O dom de nos convencer daquilo que sabemos não ser verdade, criar histórias para nós mesmos ou acreditar em algo que é claramente negado pelos fatos ou pelo pensamento racional é um mecanismo humano básico em busca de conforto ou para evitar um choque com uma realidade que parece complexa ou dolorosa demais.

Pensamentos como “o Inter tem o melhor plantel do Brasil”, “Mais cedo ou mais tarde as coisas se acertam”, “Depois do Pelotas, o Jô vai deslanchar” ou “A Andrade Gutierrez não tem culpa nenhuma dessas burocracias” são formas exclusivamente humanas de racionalizar um processo de proteção emocional, como nenhum castor, elefante ou panda faria (você consegue imaginar uma zebra perdendo na corrida para um leão e pensando “Ah, mas eu nem queria sobreviver mesmo, humpf”?)

E um dos ambientes em que o homem mais mente pra si mesmo, mais se engana, mais distorce a realidade em busca de conforto, tranqüilidade, paz de espírito e possibilidades de zoar aquele colega de escritório na segunda-feira de manhã não poderia ser outro que não o esporte, ou no caso do homem brasileiro, o futebol.

A verdade está lá fora das quatro linhas

Cabezón

As mentiras, é claro, são várias e vão mudando conforme o momento, o torcedor e a ocasião, indo desde as mais sutis até as mais complexas, das mais discretas até as mais cínicas.

Hiperdimensionamos títulos quando ganhamos e tiramos totalmente a importância deles quando perdemos (“O que é a sua Libertadores perto do meu primeiro turno do gauchão, hein? hein?”), discutimos com os fatos mesmo quando eles se apresentam claros à nossa frente (“E daí que ele atacou o cara com uma picareta dentro da pequena área? Isso lá é pênalti?!”), nos escondemos no mundo sem leis da subjetividade (“Tá dizendo que eu não posso achar que o Elton  joga mais do que o Ganso?”) e praticamos o revisionismo histórico de uma forma que deixaria Stálin corado, sem graça e dizendo “Ok, galera, desculpa, vacilei agora, parei…”.

Tal qual  tia Asteróide que se diz desiludida com os homens, prometemos que vamos parar de ver futebol, deixar de ir ao estádio, apenas para em algumas semanas estar de novo, gritando, xingando e mentalmente pensando em qual seria a forma mais dolorosa para dar uma lição no Kleber “bate em mulher” Gladiador, ou mesmo, como aquele amigo do seu pai que garante que o homem nunca foi à Lua, preferimos acreditar em uma vasta conspiração envolvendo o governo francês, a Nike, João Havelange, Fidel Castro e o complexo industrial-militar ocidental, do que apenas entender que sim, perdemos a Copa de 98, Zidane jogava muita bola e é assim que é a vida.

E  essa polêmica que envolve  a do amor pela camisa, o caso D’Alessandro.

“Love me, love me, say that you love me, fool me, fool me, go on and fool me…”

Falo da capacidade do torcedor de, clara e obviamente, mentir pra si mesmo quanto ao amor de um atleta por um clube.

A primeira vítima foi a torcida. É inegável a identificação do gringo pelo Inter, por Porto Alegre e tudo mais. Mas dizer que ele ficou por amor ao clube é um certo de exagero. Falcão tem amor ao clube. Valdomiro de amor ao clube.

D’Alessandro ficou porque a torcida se mobilizou e a direção do clube fez a sua parte pois julgou o argentino fundamental ( e é!).

Depois da decisão de D’Alê, a reação de boa parte da torcida foi de alívio e os planos de um bom time continuam.  Dentro da lógica do torcedor é mais fácil acreditar que um jogador milionário de 30 anos pode se decidir por uma proposta menor por “amor ao clube” do que foi levado a  aceitar porque é mais viável que tenha uma carrreira mais longa em Porto Alegre do que somente mais dois anos na obscura China.  É um avanço em termos de se habilitar a fazer propostas financeiras que atraiam grandes jogadores, ainda que não se saiba que prejuízo futuro elas possam gerar, prefere atribuir a vinda do jogador a outras razões. Neste caso, Inter e D’Alessandro foram prudentes. Não há sentimentalismo nenhum nisso.

love

Sim, porque dá pra ler e ouvir em diversos lugares que o argentino estaria indo para a China para “realizar um sonho da estabilidade financeira” ou coisa do gênero. Não, não tem nada a ver com os milhões de reais mensais e sim com essa coisa bonita e intangível chamada amor. Ah, pára né???

Ainda que, como disse com enorme sabedoria o Grupo Molejo, nesses casos quase nunca é amor e sim cilada, cilada, cilada.

De quanta paixão você precisa?

Não, não estou dizendo que é possível viver o futebol sem paixão ou que deixar que essa paixão te cegue um pouco não é uma parte da magia de qualquer esporte, nada disso. Um futebol racional e ponderado, em que um brasileiro pudesse virar pra um argentino, dizer que o Pelé jogou mais do que o Maradona e ouvir um “Si, si, tienes razón” não teria possivelmente 10% da graça que o futebol irracional que todos nós gostamos e conhecemos tem, com todas as suas idiossincrasias e particularidades.

Ainda assim, em alguns momentos poderia ser bom, apenas pra variar, lembrar que além de ser a nossa paixão, o nosso hobby, a razão de não podermos fazer aulas na quarta à noite e nem ir a festas de aniversários nas tardes de domingo, o futebol é um esporte profissional, motivado por essa paixão apenas no limite em que é ela que gera o dinheiro que sustenta aqueles que vivem dele.

Um jogador de futebol não é exatamente, como a gente gostaria de pensar, um devotado sacerdote da arte mágica do gol, dotado da paixão de um bardo medieval, a capacidade de sacrifício de um soldado espartano e uma identificação com o time que faz com que as hemoglobinas dele sejam no formato do escudo do clube. Talvez algum dia já tenham sido algo assim – meu pai até hoje me conta histórias sobre Larry, Bodinho, Abigail.. serem  capazes de atuar com um maxilar quebrado, duas pernas engessadas, seis furos de bala no peito e uma pedra de 35 kg amarrada no braço – mas hoje eles são, queira você ler isso no bom ou mau sentido, profissionais.

Claro que, como todos os profissionais, alguns são mais animados, outros são mais dedicados, alguns estão lá apenas pelo dinheiro no final do mês, alguns ficam o dia todo no departamento médico sem razão e outros inventam seqüestros-relâmpago para não aparecer no trabalho ( né, Somália…) e depois vão ter que se ver com a polícia por causa disso, mas futebol pra eles é isso, trabalho. Um trabalho mais divertido que o seu, um trabalho que impressiona mais garotas do que o do vizinho, que aperece na tv, mas trabalho. E como em todo trabalho, o fator financeiro é sempre um fator importante na hora de decidir qual vai ser seu próximo emprego.

E possivelmente foi para isso que serviu toda essa história envolvendo o argentino e a China, pra tornar um pouco mais complicado pra todos nós acreditar na bonita história de que jogadores ainda amam seus clubes e colocam o coração antes do bolso na hora de pensar numa transferência.

Mas claro que, como em toda mentira que se conta pra si mesmo, esse choque de realidade não vai durar pra sempre. Afinal, parece que o Adriano quer voltar no meio do ano para o Rio e todo mundo sabe que ele ama mesmo é o Flamengo, certo?

Kisses…

 Simone Bonfante – Criciúma/SANTA CATARINA
 Inter: no campeonato das paixões és líder invicto e isolado!

12 thoughts on “Love me, love me,say that you love me, fool me, go on and fool me…

  1. O Inter se apequenou muito nos ultimos jogos. O Sta Cruz não serve de referencia. E o D’Alessandro sumiu nos ultimos jogos…Será que tem relação?

    1. Acho que não. Acredito que é só uma questão de tempo. Em 2012 só tenho duas questões a questionar: nossas atitudes contra Santos e Grêmio, não mais que isso.

    1. Também acho… não é este Dagoberto que pedi em post anteriores. Um lapso do Dagol que pedi eu vi naquela arrancada no grenal, nada mais que isso até o momento.

  2. Será que o Inter vai se desejar envolver sempre quando marcarem o D’Alessandro ou quando ele não jogar? Fizemos um grande esforço para mantê-lo e tem o Oscar tbém, talvez não seja a hora de mudarmos para não sermos tão previsiveis…

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